Batman dia das bruxas

Entre 93 e 95 Jeph Loeb (texto) e Tim Sale (arte) publicaram três histórias curtas dentro da série LEGENDS OF THE DARK KNIGHT. Temores (1993), Loucura (1994) e Fantasmas (1995). Mais tarde essas histórias foram compiladas e lançadas sob o título “Batman: Haunted Knight” (1996, EUA) aqui chamado “Batman: Dia das Bruxas” (2011, BRA/Panini Books).

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Como o nome já indica, todas as tramas se passam no dia 31 de outubro, e sempre um arqui-insano-inimigo do Batman foge da prisão e aterroriza Gothan na fatídica data, o que torna a cidade mais macabra que o usual.

O primeiro é o Espantalho, em “Temores”, no traço incrível de Tim Sale (a personagem aparece muito bonita, mesmo). É de longe a melhor história do compilado, um conto simples  do Batman combatendo o mal, a loucura velada de Bruce Wayne e a maldade espalhafatosa do Espantalho.

Na história seguinte o Chapeleiro Louco sequestra crianças e adolescentes para tomar o chá das cinco, inclusive a filha do comissário Jim Gordon, que acabara de fugir de casa. É a mais fraca das tramas, apesar de ser baseada em “Alice” de Lewis Carrol, nem a história nem o Chapeleiro Louco conseguem prender a atenção do leitor assim como o Espantalho o fez, o Chapeleiro não tem carisma e a maior parte da narrativa conta a relação de Bruce e o livro de Carrol, a parte boa é como Tim retratou Bruce criança, um flashback em preto e branco, onde salta aos olhos a intensidade do traço , aliás o traço é o grande trunfo dessa HQ.

A última história é baseado no conto de Natal de Charles Dickens. O vilão principal é o próprio Batman, apesar do pinguim aparecer no início como introdução da história. Três fantasmas aparecem para contar a Bruce o que acontecerá caso ele se dedique mais ao Batman e esqueça que ainda é o Wayne. Ironicamente, os fantasmas que deve alertá-lo do perigo de tanto se comprometer com o homem morcego e Gothan, livrando-a do crime, são vilões que atormentam a paz e a justiça da cidade; Hera Venenosa e o Coringa, o último fantasma, já que o conto original tem três, é um Batman derrotado e esquecido.

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Futuro e passado distantes ajudam a compreender quem é essa criatura das trevas, os vários trechos em que Bruce volta a infância deixam isso claro, os inimigos não vem armar melhor contra o Batman do que seu passado, o quanto isso o fere e o quanto o fortalece.

A derrota é um ponto fundamental que liga as três histórias, em todas elas é cada vez mais visível a impossibilidade do homem morcego proteger Gothan para sempre. Um dia ele sucumbirá. Ser o Batman é um fardo muito pesado, que constantemente indaga a si mesmo se vale a pena carregar. Mas é maior que ele, o desejo de proteger os cidadãos de Gothan e livrá-la da criminalidade que levou seus pais, ajuda também o fato de ele ser tão louco quanto seus inimigos, afinal é preciso abdicar as vezes da racionalidade para lidar com eles, pensar como um psicopata.

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Essas histórias não buscam uma resposta para essas reflexões, na verdade elas nem trazem essas indagações explicitamente, mas o bom texo de Jeph Loeb transforma até mesmo uma aventura isolada do Homem-Morcego sem ligação alguma com uma trama maior, numa boa análise do que é esse personagem tão complexo que é o Batman.

 

Ruim/ Regular /Bom /Ótimo/ Excelente

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A Message from …

A Message from Eurydice:

Here comes the night time, afterlife
We exist, normal people, you already knew.
Never ends.
That awful supersymmetric sound.
While a porn Joan of Arch, with flahsbulb eyes dances.
Here comes the night, again?
Or is that a reflektor?

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31 de outubro de 2013 · 21:31

Estranhos Pedidos em Livrarias

Jen Campbell já ouviu tanto pedido estranho de cliente como livreira que decidiu compilar as mais bizarras e engraçadas em um livro, “Weird Things Customers Say in Bookstores” (Coisas Estranhas que Clientes Dizem em Livrarias, na tradução literal). Aqui uma pequena amostra do que ela já ouviu em sua loja e outras livrarias pelos EUA e Canadá.

1

Cliente: Com licença, você tem alguma edição autografada das peças de Shakespeare?
Vendedor: Hum… você quer dizer autografado pelos atores que fizeram a peça?
Cliente: Não, assinado pelo próprio Willian Shakespeare.

2

Cliente: Charles Dickens escreveu alguma coisa engraçada.

3

Cliente: Eu li um livro quando era mais novo. Não lembro o autor, ou o título. Mas era verde e engraçado. Você sabe qual é?

4

Cliente: Eu esqueci meus óculos, você poderia ler o começo desse livro para mim para ver se eu gosto?

5

Cliente: Você tem palavras cruzadas de segunda mão?
Vendedor: Você quer dizer palavras cruzadas já feitas?
Cliente: Sim. Eu adoro palavras cruzadas mas, elas são muito difíceis.

6

Cliente: Que livros eu poderia comprar para quando meus convidados olharem minha estante pensarem: “Caramba, esse é cara é inteligente”?

7

Cliente: Você tem algum livro da Jane Eyre?

8

Cliente: Você tem esse livro (mostra uma biografia) mas sem as fotografias?
Vendedor: Eu acho que as fotos são publicadas com o texto em toda edição.
Cliente: Por que?
Vendedor: Acho que assim o leitor pode ver como as pessoas eram.
Cliente: Não gosto de fotografias.
Vendedor: Tudo bem.                                                                                                                                                                                                                                      Cliente: Você poderia recortá-las para mim?

9

Cliente: Eu gostaria de comprar o livro mais pesado que vocês têm, por favor.

10

Cliente: Meus filhos estão escalando suas prateleiras. Tudo bem, né? Eles não vão cair lá de cima, vão?

 

©2012 by Jen Campbell. From Weird Things Customers Say in BookstoresOverlook Press. All rights reserved.

Tradução de um post do portal Parade.com sem  fim lucrativo.

Nonprofit translation from Parade.com.

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Memórias de um Certo Oriente

Todo o meu interesse por literatura, mercado editorial e estudos literários, praticamente a essência do meu ser, nasceu de um livro lido na 7ª série, “Cinzas do Norte” do Milton Hatoum, depois daquele livro nunca mais consegui ser o mesmo, a história me marcou tão profundamente, a leitura foi tão intensa que até hoje (estou no último ano do colegial) me sinto estranho quando lembro dele, aqueles dias de 2009 lendo aquele livro definitivamente são um dos melhores momentos da minha vida.

"Cinzas do Norte"

“Cinzas do Norte”

Mas não é desse livro que eu vou falar aqui, só achei necessário situar meu amor por esse cara, MILTON HATOUM. O livro desta postagem é o primeiro do Milton. “Relato de um Certo Oriente” (Companhia das Letras, 1989). Milton Hatoum nasceu no Amazonas, morou em Brasília, fez arquitetura, foi jornalista, professor, rodou o mundo e hoje é considerado um dos principais escritores da literatura contemporânea Brasileira. Do início da escrita do livro até a publicação foram 7 anos e levou o APCA de melhor romance.

Uma mulher volta a Manaus, sua terra natal depois de 20 anos fora, tentando reencontrar a família e a si mesma. Por meio de cartas que ela escreve para seu irmão em Barcelona para situá-lo da atual situação dos parentes, ela conta toda a vida dessa família que os adotou, desde a chegada desses ao Brasil vindos do oriente distante, passando pela consolidação de suas novas raízes até o distanciamento uns dos outros por diversas razões, e os efeitos que a quebra dessa unidade familiar causam a cada personagem.

A história é contada por muitas vozes. A narrativa é construída pela conexão de relatos fornecidos pelos personagens, cada um contribui com suas lembranças sobre o convívio, a irmandade, a paternidade, que formam um painel do que foi a vida daquelas pessoas ligadas pelo sangue, pelo amor ou simplesmente pela camaradagem.

"Relato de um Certo Oriente"

“Relato de um Certo Oriente”

Temos uma matriarca gentil, generosa e decidida em tudo que faz, seus filhos tão diferentes, seu amado e as vezes rude marido, uma Manaus classe média bem perto de uma Manaus de pobreza estrema e abandono, além da casa, reino encantado da narradora, que agora encontra-se sem nenhum encanto, só restando memória da infância longínqua que ela precisa preservar.

Milton Hatoum tem uma prosa extremamente poética, cada linha, parágrafo são dotados de uma poesia singular que não é encontrada facilmente, e uma linguagem que mesmo de fácil entendimento é de riqueza imensurável.  É como se cada página lida emitisse um fotón de luz para o leitor, iluminando uma minúscula parte do ser, mas ao final tudo está mais claro, uma verdadeira “leitura iluminadora” e você percebe a grandiosidade, a sordidez e a finitude de estar no mundo e ser parte de algo dele, como a família e toda a problemática que sabemos ser uma família.

Milton Hatoum

Milton Hatoum

Um livro imperdível como todos os do Milton Hatoum, que você lê e relê trocentas vezes durante a vida e nunca se cansa. Porque é a vida encapada, embrochurada e mais poética (num sentido acadêmico).

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Quem é Você, Alasca?

Ano passado “A Culpa é das Estrelas” do John Green foi publicado aqui no Brasil pela Intríseca, foi sucesso de vendas, tanto que já saiu outro livro dele esse ano. Mas em 2010 Green já tinha sido publicado no Brasil pela WMF Martins Fontes, editora que não faz um marketing tão intenso quanto a Intríseca, daí quando A Culpa é das Estrelas saiu como um dos mais bem vendidos da Bienal do Livro de SP 2012 todo mundo foi correr atrás desse Green e consequentemente descobriram “Quem é Você Alasca?” (Fiz uma pequena pesquisa e grande maioria das resenhas em blogs sobre “Alasca” foram feitam após o lançamento de “A Culpa é das Estrelas”).

"Quem é Você Alasca?"

“Quem é Você Alasca?”

Miles Halter é um garoto anti-social sem amigos que  decidi ir para um internato longe de tudo para tentar “recomeçar a vida”, já que a sua atual não lhe propicia nada mais que enfado.

Seu planinho funciona, na nova escola, Culver Creek ele finalmente encontra amigos e dos bons. O Coronel seu colega de quarto, Takumi o nerd típico, a enigmática Alasca além de Lara a intercambista com quem tem um breve romance. Tendo uma vida real de fato, com muitas vezes ele mesmo afirma, Miles acaba descobrindo o quão bom pode ser a vida com seus amigos por perto e toda a complexidade de ter que lidar com as pessoas e seus sentimentos, como um bom amigo deve fazer. Toda essa experiência é nova para ele, e a cada dia parece mais difícil e divertida. Mal ele sabe que aquele período na escola será um breve ensaio para as dificuldades que todos enfrentamos na vida.

Amor, amizade, drogas, sofrimento. Na adolescência essas coisas são muito mais intensas do que em qualquer outra época de nossa vida, é disso que fala o livro, dessa terra pós infância que precisamos desbravar, mesmo que acompanhados, sempre parecemos estar sozinhos. Mas isso é muito importante, o estar sozinho, só assim para descobrirmos e entrarmos em contato com nós mesmos, nossa própria visão de mundo sem interferência alheia. Já que não contaremos mais com nossos pais para nos protegermos quando alguma coisa der errado. Teremos o apoio das pessoas que gostamos e gostam da gente mas vai ser preciso dar a própria cara a tapa.

“Quem é você, Alasca?” É o primeiro livro de John Green, lançado em 2005, só chegou ao Brasil 5 anos depois, foi traduzido para mais de 15 idiomas e ganhou alguns prêmios importantes dados a escritores juvenis, além de vários outros que ele apenas foi indicado, e as listas de livro do ano em que foi incluso. É de uma linguagem simples, própria para a idade para qual é indicado (dos 12 aos 18) e uma leitura muito agradável, não é muito indicado para pessoas mais velhas que isso, pois vão achar muito infantil.

John Green

John Green

Não gosto particularmente do livro, não por ser para adolescentes, mas por parecer muito “O Apanhador no Campo de Centeio” do J.D. Salinger, publicado em 1951, clássico da literatura americana. Na história Holden Caufield é expulso de um colégio interno e decidi adiar ao máximo que puder seu reencontro com a família perambulando por Nova York. Nesse meio tempo Holden enfrenta diversas indagações sobre sua vida e sua condição humana, com conversas com algumas pessoas importantes para ele como uma antiga namorada, sua irmã mais nova e um professor a quem tem muito respeito, mas também passando muito tempo sozinho.

"O Apanhador No Campo de Centeio"

“O Apanhador No Campo de Centeio”

Os problemas de Holden são os mesmo de Miles, a dificuldade de entender a si mesmo e ao mundo numa fase da vida em que tudo é muito intenso e muda constantemente. Mas Green não exatamente plagia a história, Miles está em busca do que deve ser pois nunca fora nada, Holden está em busca do que não ser, pois está cansado de sua atual condição. Eles fazem o caminho inverso, enquanto Miles parte para a escola em busca de amigos, Holden sai para casa e no caminho até lá, busca ficar sozinho. Ambos percebem que não dá pra viver sempre sozinho, mas também não podem ser amparados a todo momento, precisam aprender a se virar.

J.D. Salinger

J.D. Salinger

A influência do “Apanhador” em “Alasca” é evidente, e muito forte mas mesmo assim são livros bem singulares, cada um tem algo de diferente a oferecer, situações, soluções, ideias. Aconselho a leitura dos dois, a ordem você decide.

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Jogos Não Tão Vorazes

Depois de Harry Potter poucos são os livros infanto-juvenis que alcançaram ótima aceitação da crítica e público, um dos membros desse seleto grupo é Jogos Vorazes de Suzanne Collins (Rocco 2010). Vendeu horrores, virou filme, caiu no gosto de todo mundo e tem uma legião de fãs que defendem a obra com unhas e dentes.

Capa da Edição Brasileira (Rocco 2010)

Capa da Edição Brasileira (Rocco 2010)

Depois de uma guerra (não esclarecida nesse volume) os EUA passam por uma reformulação geral do sistema, agora eles se chamam Panem e são divididos em 13 distritos e uma capital. Panem é uma ditadura muito louca, que mais parece um regime socialista (URSS melhor falando, ou visão americana comum da URSS). O povo da capital vive no bem bom às custas do trabalho das populações dos distritos. Lá todos são ricos, se vestem de forma bizarra e vivem fazendo plásticas para melhorar a aparência. Enquanto nos distritos tudo é escasso e a maioria vive na pobreza, os habitantes de alguns distritos sofrem menos que outros por produzirem materiais indispensáveis à vida da Capital,  não é o caso do Distrito *12 lar dos protagonistas da história, que produz apenas carvão.

Katniss é uma garota de 16 anos que perdeu o pai e ficou responsável por sustentar a irmã mais nova e mãe depressiva, quando criança aprendeu a caçar e a sobreviver do que a natureza oferece, o que ajudou a ela e sua família a não morrerem de fome após a morte do pai. Já Peeta é filho de um padeiro do distrito, por isso vive bem melhor que boa parte da população, bem alimentado, bem vestido e nunca tem de dar duro para sobreviver.

O elemento que dá vida a narrativa são os jogos vorazes, um reality show bizarro criado pela capital para tocar o terror nos distritos e se auto afimar no poder. Anualmente duas pessoas, uma de cada sexo, são escolhida para representar seus distritos na competição que acontece na Capital, os 24 tributos, como são chamados as pessoas escolhidas, são jogadas em uma arena onde precisam lutar entre si até sobrar apenas um sobrevivente (é matar ou morrer). Esse é consagrado o vencedor, ganha dinheiro, muda de vida e fica responsável por treinar os tributos de seu distrito na próxima edição dos jogos, além do distrito que representa ter direito a algumas regalias.

Primrose Everdeen e Peeta Mellark são escolhidos como os representantes do Distrito 12 nos Jogos, mas Katniss sua irmã, acaba apelando para substituir a menina que tem apenas 12 anos. Logo estão Peeta e Katniss embarcando ruma a Capital, se junta a eles Haymitch, último vencedor pelo distrito e treinador dos tributos e Effie Trinket, uma coordenadora da equipe do Distrito 12. Assim começam os Jogos Vorazes.

A narrativa é muito fluída, com uma linguagem simples, é aquele tipo de livro que quando você começa a ler, dá pra dar conta em duas tardes, ou em apenas um dia se você passar o dia inteiro lendo, segundo alguns relatos de leitores no Skoob. Eu li em quatro dias porque não gosto de ficar lendo uma coisa sem parar, não dá pra digerir direito. Devido ao equilíbrio perfeito entre os elementos da trama: drama, muita ação e uma dose de romance, a leitura é muito agradável, com o passar das páginas cria-se suspense, você ri, fica triste em certar situações, a ligação entre leitor e personagem se dá de forma muito rápida, nas primeiras páginas já estamos #TeamKat&Peeta e quando algo de ruim acontece a eles ficamos muito apreensivos, a ideia de um deles morrer muito preocupa o leitor, e o final do livro mantendo a tradição de uma boa série infanto-juvenil, muito nos deixa curiosos para sabermos o que vem depois.

Coloquei essa foto do elenco do filme por que é muito bonitinha.

Coloquei essa foto do elenco do filme por que é muito bonitinha.

Como  toda boa série de livros infato-juvenis a coisa acaba aí, fim da leitura, ponto final, nada mais há para se discutir. Jogos Vorazes é um literatura fast, muito bem feita e editada que dá seu retorno para o autor e a editora com as vendas e licenciamentos e, para o leitor uma leitura (aventura) divertida. Não é a coisa mais original do mundo, Battle Royale também conta uma história muito parecida e é de 1999, não se pode dizer que é plágio, mas a inspiração é óbvia (eu que não acredito nessa historinha de Suzanne Collins sobre a inspiração para história). Mas ela constroi a história de forma muito inteligente usando bases do mundo real, como o processo de independência dos EUA, 13 distristos (as 13 primeiras colônias americanas) lutam contra a Capital (Metrópole Inglesa) buscando quebrar os laços de submissão que os ligavam (o uso desse fato histórico ficará mais evidente com o passar dos livros).

É um livro bom, mas dizer que é o melhor livro do mundo, ou o melhor que já leu como os fãs costumam fazer é exagero. A edição da Rocco é muito bonita, design legal, título em alto relevo e havia alguns errinhos de grafia de palavras que já devem ter sido consertados nas reimpressões.

*ERRATA: A primeira versão do texto conta que o distrito de Peeta e Katniss é o 13, na verdade é o 12. Obrigado ao leitor Adriano Duarte por me alertar desse erro grotesco.

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H-KAFKA

Li apenas um mini conto de Kafka em uma antologia chamada Leituras de Escritor organizado pelo Moacyr Scliar é uma antologia organizada por um escritor para mostrar seus autores favoritos alguns acabaram se tornando meus também (como Jack London, Júlio Cortázar e Machado de Assis). Era um conto minúsculo não dava nem uma página e meia e contava a história de um homem sentado numa porta esperando sua vez eternamente para alguma coisa (não lembro muito bem o que) a única coisa que lembro é que era angustiante e desesperador a condição daquele personagem que nunca cansava de esperar a sua vez, que nunca chegou, para algo que mudaria para muito melhor sua vida.

PETER KUPER - Desista

Ainda não li Kafka oficialmente (um livro só dele), mas posso dizer agora que tenho uma ideia maior do que suas palavras contam. A CONDIÇÃO HUMANA – não existe nada pior no mundo para um animal. A pior coisa do ser humano é sua racionalidade ao mesmo tempo em que é a melhor, o que o distingui e o põe (não sei se muito justo) no topo de uma cadeia imaginária entre todos os seres do mundo, o torna o ser mais vulnerável e desesperado de todos  e não podemos fazer nada quanto a isso, o jeito é se virar da melhor forma possível para que esse pensamento não venha à tona a cada passo que damos.

Vivermos do melhor jeito possível com esse “mal de humano” e usá-lo a nosso favor melhorando e preenchendo nossa vida na medida do possível com algo que torne as pessoas úteis, boas e felizes, para muitos isso é fácil, para outros muitos não, Kafka era um deles.

Franz Kafka se formou em direito, trabalhou a maior parte da vida em uma empresa de seguros mas seu interesse era inteiro pela literatura, mas em vida essa nunca serviu para pagar suas contas (nem em morte, né?) publicou algumas coisas vivo, mas só foi realmente reconhecido depois de morto em 1924.

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Kafka

Minha análise de Kafka é a partir de alguns de seus contos ilustrados e adaptados para quadrinhos por Peter Kuper quadrinista americano que também já adaptou “A Metamorfose” e voltou a Kafka com “Desista! e Outras Histórias de Franz Kafka” São nove histórias sete com texto original e duas adaptadas todas muito curtas, mas que falam o mesmo e até mais que muito romance longo por aí, nem são adaptações literais nem fogem absurdamente ao que o autor quis passar, um incrível trabalho, o teor ácido, pra baixo e solitário de Kafka trabalha em perfeita sintonia com o traço caricato, obscuro, impactante, e rígidode Kuper que engrandece ainda mais a obra e facilita a reflexão sobre sua importância.

TODOS, TODOS os personagens se encontram cercados, abusados, desesperados, amordaçados presos ao mundo e ignorados por ele, um mundo que vai ficando menor com o passar dos tempos obrigando todos a conviverem juntos, levantando mais e mais dúvidas e nunca as respondendo algumas totalmente inexplicáveis, tornando qualquer saída ou meio encontrado pelas pessoas para sobreviverem, fúteis e inúteis. Tornando-as eternos espectadores com um único fim, A MORTE. Em todas as histórias a morte aparece como única solução para as pessoas, embora não seja muito citada, é totalmente onipresente, está ali, todos sabem, mas nunca se atrevem a invocá-la preferem esperar, uma espécie de masoquismo em que os personagens apesar de sofrerem persistem numa luta contínua em busca de algo que as ajude a aliviar seus pesadelos. A morte afirma a principal das angústias de Kafka em relação ao mundo, por certo ângulo tudo é trivial e banal e em seus olhos esse ângulo se mantém fixo, é tão forte que em momento algum os personagens parecem ter esperaça de melhora para suas vidas desgraçadas. (PARECEM)

No fundo as misérias dos personagens, são as que todos nós temos, o sentido da vida, porque fazer isso, porque fazer aquilo, continuar nesse mundo, qual o sentido de tudo isso, para onde vamos. Pra essas questões não vamos ter resposta por tão cedo, estamos todos de mãos atadas. A SOLUÇÃO? CONTINUA AÍ DE PÉ E ESPERA PRA VER O QUE ACONTECE, A MORTE CHEGA MAIS CEDO OU MAIS TARDE, NESSE MEIO TEMPO ENCONTRA ALGUMA COISA PRA FAZER!

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PETER KUPER

O traço de Peter Kuper é muito expressivo forte, bem trabalhado e detalhado se nas histórias de Kafka apenas por leitura os personagens já parecem muito perturbados e aterrorizantes com os desenhos isso se intensifica de forma que podemos não só sentir a “alma” do personagem agora podemos vê-lo com toda sua magreza e miséria, e nos dias de hoje como diz Jules Feiffer :

“A euro-alienação de Kafka se encontra e se mistura com a americaníssima alienação rock’n’roll de Kuper. Nossa Alienação é mais ruidosa mais estridente que a deles. Os americanos querem sair ganhando mesmo quando perdem, por isso gritam. Já os centro-europeus esperam sempre o fracasso, por isso ficam indiferentes.”

GENERALIZANDO: Europeu passa o tempo assistindo a filme romântico existencialista, americano vai pro cinema ver quebra quebra caótico e barulhento, cada um escolhe como passar seu tempo ou a vida. Mas o fim é sempre o mesmo

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TRABALHO SUJO

Rose (Amy Adams) já foi líder de torcida no ensino médio, era a garota mais gostosa e amada do colégio e pegava o cara mais gostoso e amado também. Hoje é uma doméstica de trinta e poucos econômicamente instável e com um filho suspeitamente hiperativo, o pai (Alan Arkin) é um fracassado que vive tentando emplacar um negócio atrás do outro (nunca da certo) e a irmã (Emily Blunt) uma freak de 20 poucos anos que não consegue se habituar a uma convivência sadia em sociedade, soma-se a isso ser uma norte-americana em pleno 2008, ano em que estourou a bolha imobiliária e a parcial decadência do sistema financeiro capitalista no ocidente.

Emily Blunt e Amy Adams

Emily Blunt e Amy Adams

Há alguns anos que o conhecido morto-vivo “American Way of Life” (pra quem não sabe é literalmente o jeitão americano de ser) está

gasto, e deteriorou-se muito mais após a crise que em 2011/2012 mudou de endereço aliviando um pouco os sobrinhos do Tio Sam, agora ela mora na Europa mas ainda dá umas voltas aqui pelas Américas e até no Oriente, esse jeitão de americano de ser é a principal característica desse povo, desde quando os puritanos desembarcaram naquela terra e anos depois lutaram contra a Monarquia Britânica e suas imposições, buscando liberdade e riqueza às custas de seu árduo trabalho, essa posição de defender o que é seu e seus interesses a pau e pedra foi o que fez os EUA tornar-se o que são hoje ou era até a alguns anos atrás, um gigante de aço de alto poderio militar e econômico (e que distribui(a) renda muita bem) que ajudou a moldar o mundo moderno do jeito que hoje o conhecemos.

Rose e a irmã descobrem que limpar sangue e fluídos corporais de cenas de crimes dá uma boa grana, dando duro abrem sua própria empresa do ramo, mal elas sabem que além de limpar o sangue dos que se foram precisam também lidar com os sentimentos dos que ficaram inclusive os delas.

De super popular do High School a zero a esquerda Rose e todos os outros personagens do filme percebem um pouco tarde que o mundo não é nenhum mar de rosas mas também não é uma estrada de espinhos é só o MAIOR LUGAR COMUM JÁ CONHECIDO onde é preciso inevitavelmente encarar os problemas quando esses aparecem. Um filme faz um pequeno panorama dos problemas da sociedade atual como o do filho da protagonista que por apresentar comportamento altamente imaginativo é taxado como hiperativo portador de TOC ou seja lá qual outro transtorno comportamental, os professores aconselham a mãe que trate o filho com medicação, para acalmá-lo para o “bem de todos”, problema que cada vez mais cresce hoje em dia qualquer oscilação emocional pode e deve ser tratada com medicação, comprimidos assumem o lugar de uma simples conversação, de uma troca de palavras com outra pessoas e até o lugar das pessoas, o calmante farmacêutico hoje é indispensável para a estabilidade do mundo, sem eles as pessoas podem discutir, argumentar, deixar seu bem de lado e começar a pensar no de todos e coletivismo que busque o bem de alguma coisa além do das grandes empresas hoje não é bem visto pelos chefões do capitalismo.

Com  boas atuações de Emily Blunt e Amy Adams a melhor coisa do filme, nos divertimos com as aventuras das irmãs, em seus trabalhos de limpeza de fluídos corporais de cenas de homicídios e suicídios e de como lidam com essa experiência tão nova para elas, em meio a sérios problemas financeiros, psicológicos e amorosos.

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A Caverna de Saramago

Nenhum exemplo já criado no mundo para demonstrar nossa condição humana viveu e ainda vive tanto quanto o mito da caverna de Platão. Séculos passados desde sua criação ainda hoje é fundamental para compreensão e estudo de nossa sociedade. José Saramago em A Caverna (Companhia das Letras, 2001) mostra que mesmo vários séculos depois, continuamos cegos perante a realidade de nossa condição humana como aqueles homens acorrentados naquele buraco, essa realidade de telespectador a que estamos submetidos ante o domínio do comodismo e praticidade resultado da globalização, em um mundo que ao mesmo tempo é livre e repleto de fronteiras. Cipriano Algor é filho e neto de oleiros (artesão que faz peças de barro) sempre viveu de fabricar utensílios de argila, pratos, cântaros, copos… Como o personagem mesmo vê, toda a sua vida está empesteada de vermelho do barro.

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Ele vende suas mercadorias ao centro da cidade, o coração econômico, é de lá tudo o que sai para a vida das pessoas do lugar, que dita qual estilo de vida elas devem levar, visando melhorar suas passagens pelo mundo. Com o passar dos anos a procura pelos produtos da olaria Algor diminui as pessoas já não querem utensílios de barro que acabam fácil e tem apenas uma cor elas querem variedade, modernidade e uma impressão de durabilidade, pois mesmo que os sejam, provavelmente logo trocarão esses novos produtos por outros que acharem mais atraentes, o Centro cancela de vez a compra dos produtos do oleiro usando o desinteresse do público como desculpa, mas a razão realmente é a pressa pelo lucro, mostrando a realidade de uma sociedade que cada vez mais rápido torna as pessoas e os objetos totalmente descartáveis, quando passam a não demonstrar utilidade a uma máquina faminta de dinheiro. Cipriano Algor então volta para casa deprimido e furioso pela falta de consideração por si e por seu trabalho

A Cipriano juntam-se Marta filha do oleiro, Marçal seu marido que trabalha de vigilante no centro e anseia por uma adesão ao lugar quando for promovido e um cão quase que parente de baleia de “Vidas Secas” só que mais inteligente e perspicaz devido aos confortos que o outro nunca tivera. Aliás, o livro lembra muito Vidas Secas não pela história em si, mas pela cabeça dos personagens. Cipriano toma pensamentos que volta e meia o parecem muito complexos e acaba atordoado devido a isso, não consegue captar e emitir da mesma forma as respostas que encontra em si para as suas inquietações outras vezes consegue, mas parece não adiantar de nada, ele tem conhecimento da sua condição de passividade e submissão perante os grandes, Fabiano (personagem de Vidas Secas) também enfrentava esse mesmo problema a dificuldade de elucidar seus pensamentos, o monte de palavras presas na cabeça (mundo inteligível) e a falta de equivalentes na garganta para demonstrá-los (mundo sensível, coitado era praticamente desdotado de ambos) uma secura de vocabulário, por muitas vezes só conseguindo emitir sons guturais e meias palavras, Sinha Vitória também me vem à cabeça quando leio o que Marta diz e pensa, casada agora responsável pela casa, pelo marido e também pelo pai depois que esse perdeu a esposa, não é lá uma mulher de muito estudo, mas fala e raciocina melhor que muitas que a gente ver por aí, Sinha Vitória também era como Marta, astuta, ambas inteligentes em potência e razoavelmente em ato caminhavam claramente em meio à escuridão lançada pelas cabeças dos homens.

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José Saramago

Mas as comparações das histórias param por aqui afinal os contextos são totalmente diferentes, mas há ainda uma semelhança e esta de importância imprescindível, a denúncia aos abusos que esses homens e milhões mundo afora sofrem pelos sistemas falhos a que estão submetidos, a alienação, ao esquecimento de suas pessoas em recantos remotos, longe de toda tecnologia, desenvolvimento e direitos humanos, onde nunca são atendidos quando precisam e com dificuldade conseguem o que é preciso para viver. A essas necessidades essenciais juntam-se outras que nem sempre são consideradas tão essenciais assim pelos personagens, como o amor, a paz do espírito, a felicidade, uma simples diversão, por não saberem que essas coisas são tão importantes quanto o alimento e o vestuário os personagens tentam afogá-las, rechaçá-las, desviar-se dobrando a esquerda quando possível e golpeando-as a marteladas com a cabeça quando não, isso leva a aquela já citada agonia no juízo dos personagens que os fazem vomitarem todos os seus sentimentos inquietações dúvidas e desesperos desmedidos, para nossa alegria (que maus somos nós não leitores e amantes de literatura?).

Esse é o primeiro livro de Saramago que leio, mas algumas características já aparecem revelando-se marcantes e que voltarão em qualquer obra sua como os diálogos, por exemplo, sem separação das falas por meio de qualquer sinal gráfico, todos são de uma fluidez perfeita e assustadora que às vezes me confundiam, mas é só pegar o ritmo nas primeiras páginas que o livro vai em um tapa, poucos livros são tão prazerosos desde as primeiras páginas, Saramago marca o texto várias e várias vezes com frases que no dia a dia podem passar despercebidas como apenas frases de efeito clichê mas são extremamente importantes no livro, as que eu lembro e provavelmente nunca esquecerei são essas… “NEM A JUVENTUDE SABE O QUE PODE, NEM A VELHICE PODE O QUE SABE.” “CONHECE-TE A TI MESMO – COMO SE ESSA NÃO FOSSE A TAREFA MAIS ÁRDUA PARA UM HOMEM.”

Uma coisa interessante é que a pedido do autor foi mantida a ortografia original lusitana, (o que não sei se hoje depois desta bosta de acordo ortográfico unificado se mantém nas novas edições, a que eu li é de 2001). É muito legal essa coisa da ortografia lusitana é um verdadeiro convite a um lugar que você já conhece faz tempo, mas vai encontrar de uma forma nova, você é desafiado a aprender palavras novas para nomear coisas que você conhece por outras, há também a sonoridade provavelmente se o livro fosse adaptado para a nova ortografia creio que perderia uma não tão grande parcela da sonoridade original, mas uma quantidade significante no campo do lirismo e poeticidade, que é maravilhosa, às vezes faz verdadeira dança na boca chega dar gosto de pronunciar aqueles “Á’s, c’s, cc’s, Ó’s É’s…” e vários outros que não estamos acostumados no português brasileiro.

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