Uma carta aberta de Dylan Farrow

Publicado no On The Ground do Nicholas Krystof no New York Times Online – parca tradução minha André Reis

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Qual é o seu filme favorito do Woody Allen? Antes de responder saiba que: quando eu tinha sete anos, Woody Allen me levou pela mão a um sótão escuro, como um closet, no segundo andar de nossa casa. Ele me mandou deitar de bruços e brincar com o trem elétrico do meu irmão. Então ele me agrediu sexualmente. Ele falava comigo durante o abuso, sussurrando que eu era uma boa garota, que aquele seria o nosso segredo, prometendo-me que iríamos a Paris e que eu seria uma estrela em seus filmes. Eu lembro que olhava para o trem de brinquedo, observando as voltas que ele dava no sótão. Desde aquele dia eu não gosto de olhar para trens de brinquedo.

Desde que eu me lembre, meu pai fazia coisas comigo que eu não gostava. Eu não gostava de como muitas vezes ele me levava para longe da minha mãe, irmãos e amigos para ficarmos sozinhos.  Eu não gostava quando ele enfiava seu dedão em minha boca. Eu não gostava quando tinha que ficar debaixo dos lençóis com ele só de cueca.  Eu não gostava quando ele colocava sua cabeça em meu colo com aquela respiração pesada. Eu me escondia debaixo das camas ou dentro do banheiro para evitar me encontrar com ele, mas ele sempre me achava. Essas coisas aconteceram tão frequentemente e tão bem escondidas de minha mãe, que teria me protegido se soubesse o que acontecia, que eu comecei a pensar que era tudo normal. Eu pensei que aquele, era só mais um jeito carinhoso que os pais tratavam suas filhas. Mas aquilo não era jeito de pai tratar filha de forma alguma. Eu não conseguia mais guardar segredo.

Quando eu perguntei a minha mãe se o pai dela fazia aquelas coisas que Woody Allen fazia comigo, eu sinceramente não sabia a resposta. Eu também não sabia a tempestade que aquela pergunta causaria. Eu não sabia que meu pai usaria a relação sexual dele com minha irmã para encobertar o abuso que ele cometeu. Eu não sabia que ele acusaria minha mãe de fazer minha cabeça e chamá-la de mentirosa por me defender. Eu não sabia que me obrigariam a contar e recontar a minha história indefinidas vezes para incontáveis médicos, para verem se eu admitiria que estava mentido, por causa de uma batalha judicial que eu nunca poderia entender. Havia médicos dispostos a confundir a cabeça de uma criança abusada sexualmente. A certo ponto, minha mãe me sentou e disse que não haveria problema se eu estivesse mentido – eu podia voltar atrás. Não, eu não podia. Tudo o que eu dissera era verdade. Mas denúncias de abuso sexual contra os poderosos desandam mais facilmente.*

Depois de meu pai ter os direitos de visitação negados em uma audiência, minha mãe recusou continuar uma batalha judicial, apesar da causa ser provável segundo o Estado de Connecticut, devido à, nas palavras do procurador “fragilidade da vítima”.  Woody Allen nunca foi condenado por nenhum crime. O fato dele ter se safado e simplesmente ido embora depois de tudo me atormentou enquanto eu crescia. Eu estava magoada, com culpa de que o deixei livre, para abusar de outras garotas.  Eu tinha horror de ser tocada por um homem. Eu tive distúrbio alimentar. Comecei a me cortar. O terror piorou por causa de Hollywood. Todos, menos algumas poucas pessoas (meus heróis) simplesmente fecharam os olhos para o que aconteceu. Muitos acharam mais fácil relevar, aceitar a ambiguidade “quem pode dizer o que realmente aconteceu, hein?” e fingir que estava tudo certo. Atores o elogiam em cerimônias de premiações. Outros o levam para a TV. Críticos colocam-no em revistas. Toda vez que eu via a cara do meu agressor – em um cartaz, em uma camisa, na TV – A única coisa que eu consegui fazer era esconder o meu pânico até achar um lugar em que estivesse sozinha e desmoronar completamente.

Semana passada, Woody Allen foi indicado para mais um Oscar. Mas dessa vez, eu me recuso a me esconder. Por muito tempo, o culto a Woody Allen me silenciou. Eu mesma me repreendia, os prêmios e elogios eram uma forma de me calar e cair fora. Mas todos os sobreviventes de abuso sexual que me estenderam a mão – ao me ajudar, e compartilhar seus medos sobre o futuro, de serem chamados de mentirosos, de dizerem que suas memórias não são verdadeiras, que foi tudo um engano – me deu uma razão para quebrar o silêncio, para que outros saibam que não devem se silenciar também.

Hoje, eu me considero uma pessoa de sorte. Estou muito feliz casada. Tenho a ajuda dos meus maravilhosos irmãos e irmãs. Eu tenho uma mãe que encontrou dentro de si uma força incrível que nos salvou do caos que um predador trouxe para dentro de casa.

Mas muitos ainda estão por aí, assustados, vulneráveis, tentando encontrar a coragem para dizer a verdade. A mensagem que hollywood passa os afeta.

E se fosse sua filha Cate Blanchet? Louis CK? Alec Baldwin? E se tivesse sido você Emma Stone? Ou você, Scarlett Johansson? Você me conheceu quando eu era criança Diane Keaton. Você nunca lembra de mim?

Woody Allen é a prova viva de que nossa sociedade não liga para as vítimas de abuso e agressão sexual.

Então, agora imagine sua filha de 7 anos sendo levada para um sótão pelo Woody Allen. Imagine ela passar uma vida inteira tendo náuseas só de ouvir o nome dele. Imagine um mundo que celebra o tormento dela.

Imaginou? Agora, qual é o seu filme favorito do Woody Allen?

* But sexual abuse claims against the powerful stall more easily/Mas denúncias de abuso sexual contra os poderosos desandam mais facilmente.  

Parágrafo 3, linha 8. Obrigado ao leitor Tiago por traduzir essa frase que eu não consegui.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Uma carta aberta de Dylan Farrow

  1. Chocante. E ela está correta, a sociedade abafa, culpa a vítima, esquece. Que dor enorme ela deve sentir, mas também tirou um grande peso por ter saído da sombra e do silêncio. Espero que, um dia, ela se recupere o suficiente, embora seja difícil viver em um mundo onde não se ouça falar de Woody Allen.

  2. Tiago

    *Mas denúncias de abuso sexual contra os poderosos desandam mais facilmente.

    Triste texto…

  3. Meu filme preferido de Wood allen? A biografia desse pai…

  4. Que sua carta se espalhe com o vento………o charles chaplin tbem está nessa lista de pedófilos nojentos…

  5. Quando jovem gostava de assistir ao filmes dele, mas no dia em que vi nos meios de comunicação que ele estava sendo acusado de pedofilia, e para completar se casou com a filha adotiva, deixei de ver seus filmes, sei que é uma forma indireta e boba de protestar, hoje não vejo nenhum filme dele, a muito tempo….

  6. Até que me mostrem o vídeo disso, eu não acredito. É muito fácil agredir e acusar as pessoas sem prova nenhuma, principalmente quando trata-se de alguém famoso e com visibilidade na mídia. Woody Allen é um dos maiores gênios da sétima arte. E ela, quem é? Nada além da filha aditiva dele.

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