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Uma carta aberta de Dylan Farrow

Publicado no On The Ground do Nicholas Krystof no New York Times Online – parca tradução minha André Reis

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Qual é o seu filme favorito do Woody Allen? Antes de responder saiba que: quando eu tinha sete anos, Woody Allen me levou pela mão a um sótão escuro, como um closet, no segundo andar de nossa casa. Ele me mandou deitar de bruços e brincar com o trem elétrico do meu irmão. Então ele me agrediu sexualmente. Ele falava comigo durante o abuso, sussurrando que eu era uma boa garota, que aquele seria o nosso segredo, prometendo-me que iríamos a Paris e que eu seria uma estrela em seus filmes. Eu lembro que olhava para o trem de brinquedo, observando as voltas que ele dava no sótão. Desde aquele dia eu não gosto de olhar para trens de brinquedo.

Desde que eu me lembre, meu pai fazia coisas comigo que eu não gostava. Eu não gostava de como muitas vezes ele me levava para longe da minha mãe, irmãos e amigos para ficarmos sozinhos.  Eu não gostava quando ele enfiava seu dedão em minha boca. Eu não gostava quando tinha que ficar debaixo dos lençóis com ele só de cueca.  Eu não gostava quando ele colocava sua cabeça em meu colo com aquela respiração pesada. Eu me escondia debaixo das camas ou dentro do banheiro para evitar me encontrar com ele, mas ele sempre me achava. Essas coisas aconteceram tão frequentemente e tão bem escondidas de minha mãe, que teria me protegido se soubesse o que acontecia, que eu comecei a pensar que era tudo normal. Eu pensei que aquele, era só mais um jeito carinhoso que os pais tratavam suas filhas. Mas aquilo não era jeito de pai tratar filha de forma alguma. Eu não conseguia mais guardar segredo.

Quando eu perguntei a minha mãe se o pai dela fazia aquelas coisas que Woody Allen fazia comigo, eu sinceramente não sabia a resposta. Eu também não sabia a tempestade que aquela pergunta causaria. Eu não sabia que meu pai usaria a relação sexual dele com minha irmã para encobertar o abuso que ele cometeu. Eu não sabia que ele acusaria minha mãe de fazer minha cabeça e chamá-la de mentirosa por me defender. Eu não sabia que me obrigariam a contar e recontar a minha história indefinidas vezes para incontáveis médicos, para verem se eu admitiria que estava mentido, por causa de uma batalha judicial que eu nunca poderia entender. Havia médicos dispostos a confundir a cabeça de uma criança abusada sexualmente. A certo ponto, minha mãe me sentou e disse que não haveria problema se eu estivesse mentido – eu podia voltar atrás. Não, eu não podia. Tudo o que eu dissera era verdade. Mas denúncias de abuso sexual contra os poderosos desandam mais facilmente.*

Depois de meu pai ter os direitos de visitação negados em uma audiência, minha mãe recusou continuar uma batalha judicial, apesar da causa ser provável segundo o Estado de Connecticut, devido à, nas palavras do procurador “fragilidade da vítima”.  Woody Allen nunca foi condenado por nenhum crime. O fato dele ter se safado e simplesmente ido embora depois de tudo me atormentou enquanto eu crescia. Eu estava magoada, com culpa de que o deixei livre, para abusar de outras garotas.  Eu tinha horror de ser tocada por um homem. Eu tive distúrbio alimentar. Comecei a me cortar. O terror piorou por causa de Hollywood. Todos, menos algumas poucas pessoas (meus heróis) simplesmente fecharam os olhos para o que aconteceu. Muitos acharam mais fácil relevar, aceitar a ambiguidade “quem pode dizer o que realmente aconteceu, hein?” e fingir que estava tudo certo. Atores o elogiam em cerimônias de premiações. Outros o levam para a TV. Críticos colocam-no em revistas. Toda vez que eu via a cara do meu agressor – em um cartaz, em uma camisa, na TV – A única coisa que eu consegui fazer era esconder o meu pânico até achar um lugar em que estivesse sozinha e desmoronar completamente.

Semana passada, Woody Allen foi indicado para mais um Oscar. Mas dessa vez, eu me recuso a me esconder. Por muito tempo, o culto a Woody Allen me silenciou. Eu mesma me repreendia, os prêmios e elogios eram uma forma de me calar e cair fora. Mas todos os sobreviventes de abuso sexual que me estenderam a mão – ao me ajudar, e compartilhar seus medos sobre o futuro, de serem chamados de mentirosos, de dizerem que suas memórias não são verdadeiras, que foi tudo um engano – me deu uma razão para quebrar o silêncio, para que outros saibam que não devem se silenciar também.

Hoje, eu me considero uma pessoa de sorte. Estou muito feliz casada. Tenho a ajuda dos meus maravilhosos irmãos e irmãs. Eu tenho uma mãe que encontrou dentro de si uma força incrível que nos salvou do caos que um predador trouxe para dentro de casa.

Mas muitos ainda estão por aí, assustados, vulneráveis, tentando encontrar a coragem para dizer a verdade. A mensagem que hollywood passa os afeta.

E se fosse sua filha Cate Blanchet? Louis CK? Alec Baldwin? E se tivesse sido você Emma Stone? Ou você, Scarlett Johansson? Você me conheceu quando eu era criança Diane Keaton. Você nunca lembra de mim?

Woody Allen é a prova viva de que nossa sociedade não liga para as vítimas de abuso e agressão sexual.

Então, agora imagine sua filha de 7 anos sendo levada para um sótão pelo Woody Allen. Imagine ela passar uma vida inteira tendo náuseas só de ouvir o nome dele. Imagine um mundo que celebra o tormento dela.

Imaginou? Agora, qual é o seu filme favorito do Woody Allen?

* But sexual abuse claims against the powerful stall more easily/Mas denúncias de abuso sexual contra os poderosos desandam mais facilmente.  

Parágrafo 3, linha 8. Obrigado ao leitor Tiago por traduzir essa frase que eu não consegui.

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A Message from …

A Message from Eurydice:

Here comes the night time, afterlife
We exist, normal people, you already knew.
Never ends.
That awful supersymmetric sound.
While a porn Joan of Arch, with flahsbulb eyes dances.
Here comes the night, again?
Or is that a reflektor?

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31 de outubro de 2013 · 21:31

Memórias de um Certo Oriente

Todo o meu interesse por literatura, mercado editorial e estudos literários, praticamente a essência do meu ser, nasceu de um livro lido na 7ª série, “Cinzas do Norte” do Milton Hatoum, depois daquele livro nunca mais consegui ser o mesmo, a história me marcou tão profundamente, a leitura foi tão intensa que até hoje (estou no último ano do colegial) me sinto estranho quando lembro dele, aqueles dias de 2009 lendo aquele livro definitivamente são um dos melhores momentos da minha vida.

"Cinzas do Norte"

“Cinzas do Norte”

Mas não é desse livro que eu vou falar aqui, só achei necessário situar meu amor por esse cara, MILTON HATOUM. O livro desta postagem é o primeiro do Milton. “Relato de um Certo Oriente” (Companhia das Letras, 1989). Milton Hatoum nasceu no Amazonas, morou em Brasília, fez arquitetura, foi jornalista, professor, rodou o mundo e hoje é considerado um dos principais escritores da literatura contemporânea Brasileira. Do início da escrita do livro até a publicação foram 7 anos e levou o APCA de melhor romance.

Uma mulher volta a Manaus, sua terra natal depois de 20 anos fora, tentando reencontrar a família e a si mesma. Por meio de cartas que ela escreve para seu irmão em Barcelona para situá-lo da atual situação dos parentes, ela conta toda a vida dessa família que os adotou, desde a chegada desses ao Brasil vindos do oriente distante, passando pela consolidação de suas novas raízes até o distanciamento uns dos outros por diversas razões, e os efeitos que a quebra dessa unidade familiar causam a cada personagem.

A história é contada por muitas vozes. A narrativa é construída pela conexão de relatos fornecidos pelos personagens, cada um contribui com suas lembranças sobre o convívio, a irmandade, a paternidade, que formam um painel do que foi a vida daquelas pessoas ligadas pelo sangue, pelo amor ou simplesmente pela camaradagem.

"Relato de um Certo Oriente"

“Relato de um Certo Oriente”

Temos uma matriarca gentil, generosa e decidida em tudo que faz, seus filhos tão diferentes, seu amado e as vezes rude marido, uma Manaus classe média bem perto de uma Manaus de pobreza estrema e abandono, além da casa, reino encantado da narradora, que agora encontra-se sem nenhum encanto, só restando memória da infância longínqua que ela precisa preservar.

Milton Hatoum tem uma prosa extremamente poética, cada linha, parágrafo são dotados de uma poesia singular que não é encontrada facilmente, e uma linguagem que mesmo de fácil entendimento é de riqueza imensurável.  É como se cada página lida emitisse um fotón de luz para o leitor, iluminando uma minúscula parte do ser, mas ao final tudo está mais claro, uma verdadeira “leitura iluminadora” e você percebe a grandiosidade, a sordidez e a finitude de estar no mundo e ser parte de algo dele, como a família e toda a problemática que sabemos ser uma família.

Milton Hatoum

Milton Hatoum

Um livro imperdível como todos os do Milton Hatoum, que você lê e relê trocentas vezes durante a vida e nunca se cansa. Porque é a vida encapada, embrochurada e mais poética (num sentido acadêmico).

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Quem é Você, Alasca?

Ano passado “A Culpa é das Estrelas” do John Green foi publicado aqui no Brasil pela Intríseca, foi sucesso de vendas, tanto que já saiu outro livro dele esse ano. Mas em 2010 Green já tinha sido publicado no Brasil pela WMF Martins Fontes, editora que não faz um marketing tão intenso quanto a Intríseca, daí quando A Culpa é das Estrelas saiu como um dos mais bem vendidos da Bienal do Livro de SP 2012 todo mundo foi correr atrás desse Green e consequentemente descobriram “Quem é Você Alasca?” (Fiz uma pequena pesquisa e grande maioria das resenhas em blogs sobre “Alasca” foram feitam após o lançamento de “A Culpa é das Estrelas”).

"Quem é Você Alasca?"

“Quem é Você Alasca?”

Miles Halter é um garoto anti-social sem amigos que  decidi ir para um internato longe de tudo para tentar “recomeçar a vida”, já que a sua atual não lhe propicia nada mais que enfado.

Seu planinho funciona, na nova escola, Culver Creek ele finalmente encontra amigos e dos bons. O Coronel seu colega de quarto, Takumi o nerd típico, a enigmática Alasca além de Lara a intercambista com quem tem um breve romance. Tendo uma vida real de fato, com muitas vezes ele mesmo afirma, Miles acaba descobrindo o quão bom pode ser a vida com seus amigos por perto e toda a complexidade de ter que lidar com as pessoas e seus sentimentos, como um bom amigo deve fazer. Toda essa experiência é nova para ele, e a cada dia parece mais difícil e divertida. Mal ele sabe que aquele período na escola será um breve ensaio para as dificuldades que todos enfrentamos na vida.

Amor, amizade, drogas, sofrimento. Na adolescência essas coisas são muito mais intensas do que em qualquer outra época de nossa vida, é disso que fala o livro, dessa terra pós infância que precisamos desbravar, mesmo que acompanhados, sempre parecemos estar sozinhos. Mas isso é muito importante, o estar sozinho, só assim para descobrirmos e entrarmos em contato com nós mesmos, nossa própria visão de mundo sem interferência alheia. Já que não contaremos mais com nossos pais para nos protegermos quando alguma coisa der errado. Teremos o apoio das pessoas que gostamos e gostam da gente mas vai ser preciso dar a própria cara a tapa.

“Quem é você, Alasca?” É o primeiro livro de John Green, lançado em 2005, só chegou ao Brasil 5 anos depois, foi traduzido para mais de 15 idiomas e ganhou alguns prêmios importantes dados a escritores juvenis, além de vários outros que ele apenas foi indicado, e as listas de livro do ano em que foi incluso. É de uma linguagem simples, própria para a idade para qual é indicado (dos 12 aos 18) e uma leitura muito agradável, não é muito indicado para pessoas mais velhas que isso, pois vão achar muito infantil.

John Green

John Green

Não gosto particularmente do livro, não por ser para adolescentes, mas por parecer muito “O Apanhador no Campo de Centeio” do J.D. Salinger, publicado em 1951, clássico da literatura americana. Na história Holden Caufield é expulso de um colégio interno e decidi adiar ao máximo que puder seu reencontro com a família perambulando por Nova York. Nesse meio tempo Holden enfrenta diversas indagações sobre sua vida e sua condição humana, com conversas com algumas pessoas importantes para ele como uma antiga namorada, sua irmã mais nova e um professor a quem tem muito respeito, mas também passando muito tempo sozinho.

"O Apanhador No Campo de Centeio"

“O Apanhador No Campo de Centeio”

Os problemas de Holden são os mesmo de Miles, a dificuldade de entender a si mesmo e ao mundo numa fase da vida em que tudo é muito intenso e muda constantemente. Mas Green não exatamente plagia a história, Miles está em busca do que deve ser pois nunca fora nada, Holden está em busca do que não ser, pois está cansado de sua atual condição. Eles fazem o caminho inverso, enquanto Miles parte para a escola em busca de amigos, Holden sai para casa e no caminho até lá, busca ficar sozinho. Ambos percebem que não dá pra viver sempre sozinho, mas também não podem ser amparados a todo momento, precisam aprender a se virar.

J.D. Salinger

J.D. Salinger

A influência do “Apanhador” em “Alasca” é evidente, e muito forte mas mesmo assim são livros bem singulares, cada um tem algo de diferente a oferecer, situações, soluções, ideias. Aconselho a leitura dos dois, a ordem você decide.

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Jogos Não Tão Vorazes

Depois de Harry Potter poucos são os livros infanto-juvenis que alcançaram ótima aceitação da crítica e público, um dos membros desse seleto grupo é Jogos Vorazes de Suzanne Collins (Rocco 2010). Vendeu horrores, virou filme, caiu no gosto de todo mundo e tem uma legião de fãs que defendem a obra com unhas e dentes.

Capa da Edição Brasileira (Rocco 2010)

Capa da Edição Brasileira (Rocco 2010)

Depois de uma guerra (não esclarecida nesse volume) os EUA passam por uma reformulação geral do sistema, agora eles se chamam Panem e são divididos em 13 distritos e uma capital. Panem é uma ditadura muito louca, que mais parece um regime socialista (URSS melhor falando, ou visão americana comum da URSS). O povo da capital vive no bem bom às custas do trabalho das populações dos distritos. Lá todos são ricos, se vestem de forma bizarra e vivem fazendo plásticas para melhorar a aparência. Enquanto nos distritos tudo é escasso e a maioria vive na pobreza, os habitantes de alguns distritos sofrem menos que outros por produzirem materiais indispensáveis à vida da Capital,  não é o caso do Distrito *12 lar dos protagonistas da história, que produz apenas carvão.

Katniss é uma garota de 16 anos que perdeu o pai e ficou responsável por sustentar a irmã mais nova e mãe depressiva, quando criança aprendeu a caçar e a sobreviver do que a natureza oferece, o que ajudou a ela e sua família a não morrerem de fome após a morte do pai. Já Peeta é filho de um padeiro do distrito, por isso vive bem melhor que boa parte da população, bem alimentado, bem vestido e nunca tem de dar duro para sobreviver.

O elemento que dá vida a narrativa são os jogos vorazes, um reality show bizarro criado pela capital para tocar o terror nos distritos e se auto afimar no poder. Anualmente duas pessoas, uma de cada sexo, são escolhida para representar seus distritos na competição que acontece na Capital, os 24 tributos, como são chamados as pessoas escolhidas, são jogadas em uma arena onde precisam lutar entre si até sobrar apenas um sobrevivente (é matar ou morrer). Esse é consagrado o vencedor, ganha dinheiro, muda de vida e fica responsável por treinar os tributos de seu distrito na próxima edição dos jogos, além do distrito que representa ter direito a algumas regalias.

Primrose Everdeen e Peeta Mellark são escolhidos como os representantes do Distrito 12 nos Jogos, mas Katniss sua irmã, acaba apelando para substituir a menina que tem apenas 12 anos. Logo estão Peeta e Katniss embarcando ruma a Capital, se junta a eles Haymitch, último vencedor pelo distrito e treinador dos tributos e Effie Trinket, uma coordenadora da equipe do Distrito 12. Assim começam os Jogos Vorazes.

A narrativa é muito fluída, com uma linguagem simples, é aquele tipo de livro que quando você começa a ler, dá pra dar conta em duas tardes, ou em apenas um dia se você passar o dia inteiro lendo, segundo alguns relatos de leitores no Skoob. Eu li em quatro dias porque não gosto de ficar lendo uma coisa sem parar, não dá pra digerir direito. Devido ao equilíbrio perfeito entre os elementos da trama: drama, muita ação e uma dose de romance, a leitura é muito agradável, com o passar das páginas cria-se suspense, você ri, fica triste em certar situações, a ligação entre leitor e personagem se dá de forma muito rápida, nas primeiras páginas já estamos #TeamKat&Peeta e quando algo de ruim acontece a eles ficamos muito apreensivos, a ideia de um deles morrer muito preocupa o leitor, e o final do livro mantendo a tradição de uma boa série infanto-juvenil, muito nos deixa curiosos para sabermos o que vem depois.

Coloquei essa foto do elenco do filme por que é muito bonitinha.

Coloquei essa foto do elenco do filme por que é muito bonitinha.

Como  toda boa série de livros infato-juvenis a coisa acaba aí, fim da leitura, ponto final, nada mais há para se discutir. Jogos Vorazes é um literatura fast, muito bem feita e editada que dá seu retorno para o autor e a editora com as vendas e licenciamentos e, para o leitor uma leitura (aventura) divertida. Não é a coisa mais original do mundo, Battle Royale também conta uma história muito parecida e é de 1999, não se pode dizer que é plágio, mas a inspiração é óbvia (eu que não acredito nessa historinha de Suzanne Collins sobre a inspiração para história). Mas ela constroi a história de forma muito inteligente usando bases do mundo real, como o processo de independência dos EUA, 13 distristos (as 13 primeiras colônias americanas) lutam contra a Capital (Metrópole Inglesa) buscando quebrar os laços de submissão que os ligavam (o uso desse fato histórico ficará mais evidente com o passar dos livros).

É um livro bom, mas dizer que é o melhor livro do mundo, ou o melhor que já leu como os fãs costumam fazer é exagero. A edição da Rocco é muito bonita, design legal, título em alto relevo e havia alguns errinhos de grafia de palavras que já devem ter sido consertados nas reimpressões.

*ERRATA: A primeira versão do texto conta que o distrito de Peeta e Katniss é o 13, na verdade é o 12. Obrigado ao leitor Adriano Duarte por me alertar desse erro grotesco.

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A Caverna de Saramago

Nenhum exemplo já criado no mundo para demonstrar nossa condição humana viveu e ainda vive tanto quanto o mito da caverna de Platão. Séculos passados desde sua criação ainda hoje é fundamental para compreensão e estudo de nossa sociedade. José Saramago em A Caverna (Companhia das Letras, 2001) mostra que mesmo vários séculos depois, continuamos cegos perante a realidade de nossa condição humana como aqueles homens acorrentados naquele buraco, essa realidade de telespectador a que estamos submetidos ante o domínio do comodismo e praticidade resultado da globalização, em um mundo que ao mesmo tempo é livre e repleto de fronteiras. Cipriano Algor é filho e neto de oleiros (artesão que faz peças de barro) sempre viveu de fabricar utensílios de argila, pratos, cântaros, copos… Como o personagem mesmo vê, toda a sua vida está empesteada de vermelho do barro.

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Ele vende suas mercadorias ao centro da cidade, o coração econômico, é de lá tudo o que sai para a vida das pessoas do lugar, que dita qual estilo de vida elas devem levar, visando melhorar suas passagens pelo mundo. Com o passar dos anos a procura pelos produtos da olaria Algor diminui as pessoas já não querem utensílios de barro que acabam fácil e tem apenas uma cor elas querem variedade, modernidade e uma impressão de durabilidade, pois mesmo que os sejam, provavelmente logo trocarão esses novos produtos por outros que acharem mais atraentes, o Centro cancela de vez a compra dos produtos do oleiro usando o desinteresse do público como desculpa, mas a razão realmente é a pressa pelo lucro, mostrando a realidade de uma sociedade que cada vez mais rápido torna as pessoas e os objetos totalmente descartáveis, quando passam a não demonstrar utilidade a uma máquina faminta de dinheiro. Cipriano Algor então volta para casa deprimido e furioso pela falta de consideração por si e por seu trabalho

A Cipriano juntam-se Marta filha do oleiro, Marçal seu marido que trabalha de vigilante no centro e anseia por uma adesão ao lugar quando for promovido e um cão quase que parente de baleia de “Vidas Secas” só que mais inteligente e perspicaz devido aos confortos que o outro nunca tivera. Aliás, o livro lembra muito Vidas Secas não pela história em si, mas pela cabeça dos personagens. Cipriano toma pensamentos que volta e meia o parecem muito complexos e acaba atordoado devido a isso, não consegue captar e emitir da mesma forma as respostas que encontra em si para as suas inquietações outras vezes consegue, mas parece não adiantar de nada, ele tem conhecimento da sua condição de passividade e submissão perante os grandes, Fabiano (personagem de Vidas Secas) também enfrentava esse mesmo problema a dificuldade de elucidar seus pensamentos, o monte de palavras presas na cabeça (mundo inteligível) e a falta de equivalentes na garganta para demonstrá-los (mundo sensível, coitado era praticamente desdotado de ambos) uma secura de vocabulário, por muitas vezes só conseguindo emitir sons guturais e meias palavras, Sinha Vitória também me vem à cabeça quando leio o que Marta diz e pensa, casada agora responsável pela casa, pelo marido e também pelo pai depois que esse perdeu a esposa, não é lá uma mulher de muito estudo, mas fala e raciocina melhor que muitas que a gente ver por aí, Sinha Vitória também era como Marta, astuta, ambas inteligentes em potência e razoavelmente em ato caminhavam claramente em meio à escuridão lançada pelas cabeças dos homens.

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José Saramago

Mas as comparações das histórias param por aqui afinal os contextos são totalmente diferentes, mas há ainda uma semelhança e esta de importância imprescindível, a denúncia aos abusos que esses homens e milhões mundo afora sofrem pelos sistemas falhos a que estão submetidos, a alienação, ao esquecimento de suas pessoas em recantos remotos, longe de toda tecnologia, desenvolvimento e direitos humanos, onde nunca são atendidos quando precisam e com dificuldade conseguem o que é preciso para viver. A essas necessidades essenciais juntam-se outras que nem sempre são consideradas tão essenciais assim pelos personagens, como o amor, a paz do espírito, a felicidade, uma simples diversão, por não saberem que essas coisas são tão importantes quanto o alimento e o vestuário os personagens tentam afogá-las, rechaçá-las, desviar-se dobrando a esquerda quando possível e golpeando-as a marteladas com a cabeça quando não, isso leva a aquela já citada agonia no juízo dos personagens que os fazem vomitarem todos os seus sentimentos inquietações dúvidas e desesperos desmedidos, para nossa alegria (que maus somos nós não leitores e amantes de literatura?).

Esse é o primeiro livro de Saramago que leio, mas algumas características já aparecem revelando-se marcantes e que voltarão em qualquer obra sua como os diálogos, por exemplo, sem separação das falas por meio de qualquer sinal gráfico, todos são de uma fluidez perfeita e assustadora que às vezes me confundiam, mas é só pegar o ritmo nas primeiras páginas que o livro vai em um tapa, poucos livros são tão prazerosos desde as primeiras páginas, Saramago marca o texto várias e várias vezes com frases que no dia a dia podem passar despercebidas como apenas frases de efeito clichê mas são extremamente importantes no livro, as que eu lembro e provavelmente nunca esquecerei são essas… “NEM A JUVENTUDE SABE O QUE PODE, NEM A VELHICE PODE O QUE SABE.” “CONHECE-TE A TI MESMO – COMO SE ESSA NÃO FOSSE A TAREFA MAIS ÁRDUA PARA UM HOMEM.”

Uma coisa interessante é que a pedido do autor foi mantida a ortografia original lusitana, (o que não sei se hoje depois desta bosta de acordo ortográfico unificado se mantém nas novas edições, a que eu li é de 2001). É muito legal essa coisa da ortografia lusitana é um verdadeiro convite a um lugar que você já conhece faz tempo, mas vai encontrar de uma forma nova, você é desafiado a aprender palavras novas para nomear coisas que você conhece por outras, há também a sonoridade provavelmente se o livro fosse adaptado para a nova ortografia creio que perderia uma não tão grande parcela da sonoridade original, mas uma quantidade significante no campo do lirismo e poeticidade, que é maravilhosa, às vezes faz verdadeira dança na boca chega dar gosto de pronunciar aqueles “Á’s, c’s, cc’s, Ó’s É’s…” e vários outros que não estamos acostumados no português brasileiro.

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