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A Caverna de Saramago

Nenhum exemplo já criado no mundo para demonstrar nossa condição humana viveu e ainda vive tanto quanto o mito da caverna de Platão. Séculos passados desde sua criação ainda hoje é fundamental para compreensão e estudo de nossa sociedade. José Saramago em A Caverna (Companhia das Letras, 2001) mostra que mesmo vários séculos depois, continuamos cegos perante a realidade de nossa condição humana como aqueles homens acorrentados naquele buraco, essa realidade de telespectador a que estamos submetidos ante o domínio do comodismo e praticidade resultado da globalização, em um mundo que ao mesmo tempo é livre e repleto de fronteiras. Cipriano Algor é filho e neto de oleiros (artesão que faz peças de barro) sempre viveu de fabricar utensílios de argila, pratos, cântaros, copos… Como o personagem mesmo vê, toda a sua vida está empesteada de vermelho do barro.

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Ele vende suas mercadorias ao centro da cidade, o coração econômico, é de lá tudo o que sai para a vida das pessoas do lugar, que dita qual estilo de vida elas devem levar, visando melhorar suas passagens pelo mundo. Com o passar dos anos a procura pelos produtos da olaria Algor diminui as pessoas já não querem utensílios de barro que acabam fácil e tem apenas uma cor elas querem variedade, modernidade e uma impressão de durabilidade, pois mesmo que os sejam, provavelmente logo trocarão esses novos produtos por outros que acharem mais atraentes, o Centro cancela de vez a compra dos produtos do oleiro usando o desinteresse do público como desculpa, mas a razão realmente é a pressa pelo lucro, mostrando a realidade de uma sociedade que cada vez mais rápido torna as pessoas e os objetos totalmente descartáveis, quando passam a não demonstrar utilidade a uma máquina faminta de dinheiro. Cipriano Algor então volta para casa deprimido e furioso pela falta de consideração por si e por seu trabalho

A Cipriano juntam-se Marta filha do oleiro, Marçal seu marido que trabalha de vigilante no centro e anseia por uma adesão ao lugar quando for promovido e um cão quase que parente de baleia de “Vidas Secas” só que mais inteligente e perspicaz devido aos confortos que o outro nunca tivera. Aliás, o livro lembra muito Vidas Secas não pela história em si, mas pela cabeça dos personagens. Cipriano toma pensamentos que volta e meia o parecem muito complexos e acaba atordoado devido a isso, não consegue captar e emitir da mesma forma as respostas que encontra em si para as suas inquietações outras vezes consegue, mas parece não adiantar de nada, ele tem conhecimento da sua condição de passividade e submissão perante os grandes, Fabiano (personagem de Vidas Secas) também enfrentava esse mesmo problema a dificuldade de elucidar seus pensamentos, o monte de palavras presas na cabeça (mundo inteligível) e a falta de equivalentes na garganta para demonstrá-los (mundo sensível, coitado era praticamente desdotado de ambos) uma secura de vocabulário, por muitas vezes só conseguindo emitir sons guturais e meias palavras, Sinha Vitória também me vem à cabeça quando leio o que Marta diz e pensa, casada agora responsável pela casa, pelo marido e também pelo pai depois que esse perdeu a esposa, não é lá uma mulher de muito estudo, mas fala e raciocina melhor que muitas que a gente ver por aí, Sinha Vitória também era como Marta, astuta, ambas inteligentes em potência e razoavelmente em ato caminhavam claramente em meio à escuridão lançada pelas cabeças dos homens.

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José Saramago

Mas as comparações das histórias param por aqui afinal os contextos são totalmente diferentes, mas há ainda uma semelhança e esta de importância imprescindível, a denúncia aos abusos que esses homens e milhões mundo afora sofrem pelos sistemas falhos a que estão submetidos, a alienação, ao esquecimento de suas pessoas em recantos remotos, longe de toda tecnologia, desenvolvimento e direitos humanos, onde nunca são atendidos quando precisam e com dificuldade conseguem o que é preciso para viver. A essas necessidades essenciais juntam-se outras que nem sempre são consideradas tão essenciais assim pelos personagens, como o amor, a paz do espírito, a felicidade, uma simples diversão, por não saberem que essas coisas são tão importantes quanto o alimento e o vestuário os personagens tentam afogá-las, rechaçá-las, desviar-se dobrando a esquerda quando possível e golpeando-as a marteladas com a cabeça quando não, isso leva a aquela já citada agonia no juízo dos personagens que os fazem vomitarem todos os seus sentimentos inquietações dúvidas e desesperos desmedidos, para nossa alegria (que maus somos nós não leitores e amantes de literatura?).

Esse é o primeiro livro de Saramago que leio, mas algumas características já aparecem revelando-se marcantes e que voltarão em qualquer obra sua como os diálogos, por exemplo, sem separação das falas por meio de qualquer sinal gráfico, todos são de uma fluidez perfeita e assustadora que às vezes me confundiam, mas é só pegar o ritmo nas primeiras páginas que o livro vai em um tapa, poucos livros são tão prazerosos desde as primeiras páginas, Saramago marca o texto várias e várias vezes com frases que no dia a dia podem passar despercebidas como apenas frases de efeito clichê mas são extremamente importantes no livro, as que eu lembro e provavelmente nunca esquecerei são essas… “NEM A JUVENTUDE SABE O QUE PODE, NEM A VELHICE PODE O QUE SABE.” “CONHECE-TE A TI MESMO – COMO SE ESSA NÃO FOSSE A TAREFA MAIS ÁRDUA PARA UM HOMEM.”

Uma coisa interessante é que a pedido do autor foi mantida a ortografia original lusitana, (o que não sei se hoje depois desta bosta de acordo ortográfico unificado se mantém nas novas edições, a que eu li é de 2001). É muito legal essa coisa da ortografia lusitana é um verdadeiro convite a um lugar que você já conhece faz tempo, mas vai encontrar de uma forma nova, você é desafiado a aprender palavras novas para nomear coisas que você conhece por outras, há também a sonoridade provavelmente se o livro fosse adaptado para a nova ortografia creio que perderia uma não tão grande parcela da sonoridade original, mas uma quantidade significante no campo do lirismo e poeticidade, que é maravilhosa, às vezes faz verdadeira dança na boca chega dar gosto de pronunciar aqueles “Á’s, c’s, cc’s, Ó’s É’s…” e vários outros que não estamos acostumados no português brasileiro.

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Arquivado em Literatura