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Memórias de um Certo Oriente

Todo o meu interesse por literatura, mercado editorial e estudos literários, praticamente a essência do meu ser, nasceu de um livro lido na 7ª série, “Cinzas do Norte” do Milton Hatoum, depois daquele livro nunca mais consegui ser o mesmo, a história me marcou tão profundamente, a leitura foi tão intensa que até hoje (estou no último ano do colegial) me sinto estranho quando lembro dele, aqueles dias de 2009 lendo aquele livro definitivamente são um dos melhores momentos da minha vida.

"Cinzas do Norte"

“Cinzas do Norte”

Mas não é desse livro que eu vou falar aqui, só achei necessário situar meu amor por esse cara, MILTON HATOUM. O livro desta postagem é o primeiro do Milton. “Relato de um Certo Oriente” (Companhia das Letras, 1989). Milton Hatoum nasceu no Amazonas, morou em Brasília, fez arquitetura, foi jornalista, professor, rodou o mundo e hoje é considerado um dos principais escritores da literatura contemporânea Brasileira. Do início da escrita do livro até a publicação foram 7 anos e levou o APCA de melhor romance.

Uma mulher volta a Manaus, sua terra natal depois de 20 anos fora, tentando reencontrar a família e a si mesma. Por meio de cartas que ela escreve para seu irmão em Barcelona para situá-lo da atual situação dos parentes, ela conta toda a vida dessa família que os adotou, desde a chegada desses ao Brasil vindos do oriente distante, passando pela consolidação de suas novas raízes até o distanciamento uns dos outros por diversas razões, e os efeitos que a quebra dessa unidade familiar causam a cada personagem.

A história é contada por muitas vozes. A narrativa é construída pela conexão de relatos fornecidos pelos personagens, cada um contribui com suas lembranças sobre o convívio, a irmandade, a paternidade, que formam um painel do que foi a vida daquelas pessoas ligadas pelo sangue, pelo amor ou simplesmente pela camaradagem.

"Relato de um Certo Oriente"

“Relato de um Certo Oriente”

Temos uma matriarca gentil, generosa e decidida em tudo que faz, seus filhos tão diferentes, seu amado e as vezes rude marido, uma Manaus classe média bem perto de uma Manaus de pobreza estrema e abandono, além da casa, reino encantado da narradora, que agora encontra-se sem nenhum encanto, só restando memória da infância longínqua que ela precisa preservar.

Milton Hatoum tem uma prosa extremamente poética, cada linha, parágrafo são dotados de uma poesia singular que não é encontrada facilmente, e uma linguagem que mesmo de fácil entendimento é de riqueza imensurável.  É como se cada página lida emitisse um fotón de luz para o leitor, iluminando uma minúscula parte do ser, mas ao final tudo está mais claro, uma verdadeira “leitura iluminadora” e você percebe a grandiosidade, a sordidez e a finitude de estar no mundo e ser parte de algo dele, como a família e toda a problemática que sabemos ser uma família.

Milton Hatoum

Milton Hatoum

Um livro imperdível como todos os do Milton Hatoum, que você lê e relê trocentas vezes durante a vida e nunca se cansa. Porque é a vida encapada, embrochurada e mais poética (num sentido acadêmico).

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