Tentativa Literária

Não me responsabilizo pelo vergonha alheia, mas se gostarem fui eu mesmo quem escrevi. ANDRÉSREIS

.ELES

Ela entrou pela porta lateral da lanchonete, uma lanchonete de beira de estrada para quem vinha de fora e dentro da cidade pra quem ali morava. Era meio tarde da noite pelo menos para o resto da cidade, acordados naquele lugar ao que parecia, só eles dois mesmo e mais outros caras que bebiam e viam TV uma espécie estranha naquela localidade INQUIETOS e dos mais variados desde os mais jovens sem perspectiva alguma de se tornarem algo útil, aos mais velhos que já tinham aproveitado tudo o que suas perspectivas há anos atrás havia lhes prometido, agora ela não valia muito. Todos bebiam felizes eram todos já colegas amigos ali dentro, como quando tempos atrás na escola a diferença é que ali eles não se preparavam para o mundo, mas tentavam esquecer a maioria das coisas que ele os mostrou. Ele passou o olho pela janela olhando o céu azul-escuro, ela sentou-se num banco alto à sua frente e a do balcão e viu o azul refletido em seu rosto.

“Oi”

Disse ela.

 “Oi”

Disse ele. E assim ficaram por certo tempo evitavam se encarar, ele serviu um café e apoiou-se no balcão, ela contornava a borda do copo de vidro com a ponta do dedo, tudo muito lento.

 “Sabe, tem uma palavra…”

“Que palavra?”

 “Estática.”

“Estática?”

“Sim.”

“Que tem estática?”

“A gente tem.”

“Como assim?”

“A gente tem estática. Quero acabar.”

“Espera aí você quer terminar? por quê?”

“Porque sim”

“Por isso, é assim que você quer terminar, do nada, com um sim e que diabos tem a estática a ver com isso? Geralmente um sim leva um relacionamento a outro patamar.”

“Não aqui agora, e se acalma”

“Então é assim, é desse jeito que a gente acaba?”

“Sim, eu não te amo”

“E desde quando isso é motivo, olha em volta você acha que para alguém aqui a falta de amor é algum motivo pra terminar? Nem foi para começar, era só formalidade. Eu gosto de ti, tá me ouvindo eu gosto de ti, tu gostas de mim, tu gostas de mim não lembra? Só isso já é suficiente.”

“Mas eu gosto de outro.”

“Mas gosta de mim.”

“E também de outro e mais, já que eu quero ficar com ele. Sabe, a estática?”

“Mas que porra tem a estática? É a força que equilibra as coisas.”

“Em repouso, imóvel, é assim que nós estamos.”

“Mas também é estável, equilíbrio.”

“Não dinâmico é assim que a gente é. Quando não tá estável chato tá desequilibrado cansativo. Você tem mais força do que eu, me puxa para qualquer canto, com ele não assim.”

“Ele?”

“Ele.”

“Quem é ele?”

“Ele. Preciso ir.”

“Não, não vai.”

“Eu preciso.”

Ela levantou-se e saiu pela mesma porta que entrou, do mesmo jeito, meio vazia.

 

Júlia

A entrevistadora sai à porta e chama, grita.

 — Próxima.

Júlia entra e se senta, a mulher fechando a porta pergunta:

 — Você se depila?

— Como?

— Depilada? Você? Tá limpa?

Demora um pouco para responder.

— Sim.

— Tira a roupa. Rápido, rápido

Ordena a mulher, não confiando muito na resposta.

— As clientes preferem ver a roupa em outra pessoa, é preciso estar limpa e lisa primeiramente, para agradar e não sujar a peça, é muito chato tirar pentelho de calcinha, decidimos contratar apenas candidatas higienizadas adequadamente.           

— Certo.

Julia abaixa a saia e a calcinha.

— A parte de cima também?

— Não. Desde que você tenha peitos.

— Ok, você não tá tão ruim, mas se for contratada nunca ponha um pé aqui com um pelo sequer, depilação no mínimo a cada duas semanas e sempre cheque em casa, use uma pinça.

A mulher se senta e manda Júlia se vestir, toma o resto de uma água que há em um copo sobre a mesa, e pede mais pelo telefone, um pouco arrogante

— Júlia Lima Soares, 22 anos, sétimo semestre de administração, boa líder, trabalha bem em grupo, dinâmica, amigável, experiência como vendedora em loja de conveniência, secretária em um consultório odontológico…

— Eu tenho uma carta de recomendação de Seu Oswaldo, o dentista.

Pega a bolsa jogada no chão e começa a procurar.

— Não querida, não precisa. Aliás, para essa vaga nem precisava de currículo.

— Não?

— Não flor, claro que não. Só é necessário o envio da foto, seu histórico pouco nos importa, você só vai experimentar calcinha e sutien e desfilar para cima e para baixo o dia inteiro. É importante não roubar, aí você terá problemas.

Júlia engole meio seco e meio molhado, mais seco que molhado.

— O que é preciso mesmo é ser bonita, magra e alta, é bom ter todas essas qualidades, mas, se não for possível é preferível que seja bonita pelo menos, o que não é o seu forte.

Só é um nariz um pouco redondo lembra Júlia.

— A altura e o peso estão bons, o nariz, seu nariz é um pouco grande, de resto tá tudo bem, mas, o nariz empata um pouco. Vou precisar de outra opinião. Mas por agora tenho que ver você andar, ande.

— Mas aqui? É um muito pequeno.

— Andar em um espaço pequeno é o de menos, aqui até que é grande, alguns trocadores são um quarto disso aqui, mas como eu disse andar é uma das últimas coisas com as quais você tem que se preocupar, algumas clientes pedem até para a modelo plantar bananeira, rápido, ainda tenho outras para atender.

Júlia começa a andar de um lado para o outro no escritório que julga ter três metros quadrados, vai e vem, dá a volta, meia volta, rodopios, para faz pose, na cadeira, em cima da mesa, nos quatro cantos, perto da porta.

— Já é suficiente, entraremos em contato.

Júlia pensa em dizer um mas, indagar se eles vão ligar mesmo, mas desisti quase ao mesmo tempo em que pensa nisso, não vai adiantar muita coisa.

— Está bem, vou esperar ansiosa.

— Eu sei que vai.

A mulher abre a porta, Júlia sai e ela chama:

— Próxima!

Uma garota já está perto da porta e a entrevistadora chama de novo:

— Próxima!

E fala baixo perto da outra garota. — Você não querida me desculpe.

Pelo menos ela ainda pede desculpas, Júlia fala em sua cabeça passando por várias outras candidatas. Ela sai pelo corredor que entrou, cheio de cadeiras desconfortáveis encostadas nas paredes, cada uma com uma garota desconfortada recostando-as. Chega ao saguão da recepção, vê pelas janelas e portas de vidro que chove, tira uma guarda chuva minúsculo de dentro da bolsa, abri ali dentro mesmo e vai embora.

 

SEM TÍTULO

 — Merda tudo isso me deixa estranho. — O que? — Tudo isso. — Você não quer mais fazer? — Não, claro que quero, mas não é só isso é tudo, tudo em conjunto sabe? — Não.

— Deixa pra lá vamos logo. — Tem um otário naquele campo ali, vamos passar por cima com o carro, engata qualquer uma aí e acelera.

                 À noite era fresca dava para sentir o ar envolver e tentar nos levar inutilmente para cima pra nos mostrar qualquer coisa, era em vão sua tarefa, não tinha força nem capacidade com o peso humano era muito diferente pra ele, pesado de uma forma estranha, tortuosa, ele só conseguia observar aquela via sacra que passava pelo mundo havia muitos mil anos, mil anos esses que pareciam sussurrar todo sofrimento e dor, ali revoltados o tempo e o espaço há tempos ou seja lá o que for que o tempo obedece, escravos desde muito, rogavam, exigiam imploravam nossa piedade que lhes dessem descanso que os libertassem cessassem as manchas de sangue em seus lençóis e em suas faces ao mesmo tempo aliviaríamos a nós mesmos.

                Surdos como sempre continuavam caminhando marcando dolorosamente o chão repetidamente da mesma forma, novamente e novamente e novamente e novamente e novamente nunca se cansavam. Nunca nos cansamos ou cansaremos.

                — Vai acelera, acelera, acelera.

                O homem não tinha tempo de correr para lugar algum, tudo muito rápido, o carro veio alto em sua direção atingiu-o com uma força que o fez se sentir como se trespassado, não nega sentiu um alívio repentino, uma alta adrenalina no segundo e uma fração que durou seu levante do solo e escorregou de cima do capô para o chão regozijou-se ali. Escorregando como se se sentisse apalpando uma mulher sensação há muito tempo experimentada, foi com força ao chão, algum sangue escorreu parecia que a própria vida se mostrava ali, em sua verdadeira forma. Passagem. Logo cessaria, nenhum sinal de qualquer coisa. Melhor. Sentia o vento fraco, o tempo decorrer, olhava o céu, a imensa quantidade de estrelas viu ali a maior, a maior e interminável história não contada bem acima de sua cabeça, respirou e fechou os olhos pela última e definitiva vez.

 

Da Pedra à Montanha

                Depois de sete dias de fundo de posso deprimido, resolvi sair de casa, desde a última sexta que não botava a cara para fora. Todo esse tempo depois me sinto um pouco mais aliviado e uns três quilos mais gordo, tinha a impressão de que ia infartar, explodir ou algo do tipo, me sentia doente. Primeiro tomei um banho, arranquei a roupa na sala mesmo, decidi queimar aquelas porcarias na primeira chance que eu tiver, empestadas de suor, não havia cristão vivente que aguentasse aquele cheiro, joguei-as num canto e fui para o banheiro. Banho frio. Eram mais ou menos seis da tarde, completava exatamente sete dias desde que ela me deu o pé na bunda, esfregava rigorosamente debaixo dos braços, o cheiro era horrível, terminei e fui me vestir, tive que me secar com umas camisas, joguei minha toalha fora também, junto com um monte mais de tralha velha, menos um livro antigo do Franzen uma das primeiras edições dele em inglês, que eu tentava ler parcamente, página após página com um dicionário na mão, foi ela quem me deu, até que eu não estava tão mal no inglês, “como estar sozinho”? Começava a descobrir a partir daquele momento. Pus um moletom velho, a calça cinza, meias cinza, uma camisa mais velha ainda, verde, e um blusão azul escuro, calcei os tênis de corrida. Parecia vivo novamente, sai pelo portão do quintal que dava para uma rua velha poeirenta, que não havia muitos anos eu brincava todo dia, pensei em sentir alguma coisa, lembrar, recuperar algo que talvez tenha perdido ou esquecido lá. Saí. Era uma rua muito larga, um grande terreno, dum lado várias casas alternando entre muito pobres, mais ou menos e ricas, e do outro a delegacia minúscula que sempre teve a vida mais chata de todas na cidade, sempre parada. Caminhei em meio ao poeirão até o final da rua, já dava oito da noite, o tempo começava a passar rápido, realmente parecia que eu estava recobrando o estado de vivo novamente, a velocidade do tempo e o vento foram os primeiros sinais, como fazia frio, cheguei à outra rua que já era calçada e me dei conta de que não tinha um plano, de para onde eu iria, eu ia acabar a noite bebendo de uma forma ou de outra querendo ou não, mas essa não era a parte principal do programa, a cerveja seria um grand finale, um marco de que eu estava de volta ou pelo menos tentando, nem era intenção voltar para casa bêbado nem nada, era apenas o ponto final do primeiro ato, e os dias não nasceriam mais mortos seguidamente.

                Dois anos, dois anos foi o que durou nosso relacionamento agora sabia que a coisa de para sempre podia não ser mentira, mas era difícil pra caralho, merda, dois anos e nós vamos nos dizer que não nos amamos mais, será que alguma vez nos amamos realmente? Acho que sim, no início a gente gostava um do outro, provavelmente, se não nunca teríamos ficado tanto tempo. Realmente a bosta do amor tem prazo de validade, melhor, um prazo de garantia, durante certo tempo tudo funciona muito bem, mas depois fica mais difícil, as coisas ao invés de andar começam a rastejar e tudo fica ruim, é preciso aprender a rastejar, todas essas pessoas tanto tempo juntas, elas tiveram que aprender a rastejar, parece a coisa certa a fazer, elas rastejam na maior felicidade, se adaptam, Darwin, evolução, imagina se Darwin não tivesse existido, Darwin salvou e salvará relacionamentos até o fim dos tempos, imagina o caos se não soubéssemos disso tudo? Colocaríamos a culpa um no outro mais do que já colocamos. Sobrevivência do mais forte, a vontade sobrevive ao amor, é realmente a vontade que nos deixa juntos, o amor e a vontade, dois seres de finalidade igual, falando de relações entre pessoas. Única finalidade: juntar seres humanos. Os dois atuando, buscando a mesma coisa, mas, não sei se são seres distintos ou a mesma coisa. Adaptação.

                Finalmente chego ao fim da primeira parte do trajeto hora de continuar com o não-plano, hora de escolher um caminho, desço pela ladeira velha ou vou pelo beco? A bifurcação. Melhor que uma pedra no meio do caminho, a pedra mesmo pulando, quebrando ou fugindo, sempre vai estar presente e não há volta, de um jeito ou de outro a pedra ela ser quebrada, já com dois caminhos não, dá para pegar um e se assim desejar voltar e pegar o outro, uma pedra ou dois caminhos, uma pedra ou dois caminhos, uma pedra ou dois caminhos.

                UMA PEDRA.

               

                Disparei correndo para casa dela, um fim definitivo estava retribuindo meu esforço e correndo também, em minha direção. Desci e subi ruas, várias, até chegar à avenida principal da cidade, atravessei ainda correndo, logo um daqueles caminhões que passavam em fluxo frenético iria cruzar meu coração e eu estaria alforriado. Cheguei a casa dela, toquei a campainha e esperei, meu suor fedido não me incomodava tanto. Quase de volta. Ela abriu o pesado portão de madeira, enrolada em um cobertor velho, com os olhos vermelhos e inchados. Uma pedra. Uma pedra. Uma pedra. Definitivamente não havia mais jeito, volta. Ela me disse com seu olhar quase ininteligível de tanto choro. Definitivamente não voltaríamos, só precisava confirmar isso, me despedi e comecei a refazer meu caminho ela fechou o portão e entrou. Cheguei a um bar numa esquina perto da casa dela e sentei ao balcão, pedi uma cerveja, contrariando meus quase planos, a cerveja não foi o ponto final da noite, ele aconteceu mais cedo do que eu imaginei, tomei uns goles e fiquei vendo TV num aparelho antigo suportado pela parede, meia hora depois ela apareceu, mais bonita, quase de volta também, tomamos muitas umas e com o bar fechando fomos embora, bêbados, eu para minha casa ela para a dela. Ainda não voltamos a nos falar.

 

DATA DE VALIDADE

Quando se trata de vida útil prefiro o ódio ao amor, o ódio passa mais rápido, enquanto o amor perdura por tempos. Mesmo morto, continua lá de pé. Somos obrigados a alimentá-lo desde que nascemos, a segurá-lo pelas pernas e trazer-lo de lá de dentro do útero para o mundo prático, depois de mais velhos somos obrigados a descobri-lo de novo dar uma nova cara, sem falar quando temos que nós mesmos produzi-lo. Já o ódio, esse tem vontade própria, vem quando necessário, nunca se intromete quando não é chamado, sabe exatamente a hora de chegar e principalmente à hora de partir, alguns até tentam mantê-lo se fosse político seria o melhor possível e impossível, nunca se deixa subornar. Essa vagueza de pensamento se refere apenas ao tempo de vida do ódio em relação ao amor, única situação em que o ódio é melhor.

SEM TÍTULO 2

Com a luz do sol a tapar-lhe a cara quando deveria fazê-la enxergar, ela caminha lentamente pelo tempo e o mundo. Vem lá do fundo, das árvores, caminha entre elas na maior intimidade consegue até ouvir o que cochicham com o vento, cada pedra range seu mau humor quando ela as pisa, uma a uma reclamando caladas. Entorpe e viva pelo ar caminha caminha caminha. Agora mais à frente aumenta sua velocidade a cada passo dado, começa a correr corre corre corre. As pedras agora gritam, agonizam em dor o sofrimento juntam vozes num coro surdo mudo. Os postes a seguem com seus olhos cegos sem se virar para ver.A rua a observa passar velozmente, calmamente em silêncio, não tem palavras para questioná-la para onde vai, a rua que tudo sabe tudo vê, tudo ouve, tudo sente sempre nos outros. Ao fim da rua surge outra a entorta e a reta apruma-a na direção certa continua seu trajeto sem saber certamente para onde. Agora todos os olhos, bocas, narizes e ouvidos visíveis ignoram-na sente-se finalmente segura, assegurada entre seus próprios de que por enquanto não será atormentada. Nada pior que ser vigiada pelo nada, sussurra com alívio.

 

SEM TÍTULO 3

Com a luz do sol a tapar-lhe a cara quando deveria fazê-la enxergar, ela caminha lentamente pelo tempo e o mundo. Vem lá do fundo, das árvores, caminha entre elas na maior intimidade consegue até ouvir o que cochicham com o vento, cada pedra range seu mau humor quando ela as pisa, uma a uma reclamando caladas. Entorpe e viva pelo ar caminha caminha caminha. Agora mais à frente aumenta sua velocidade a cada passo dado, começa a correr corre corre corre. As pedras agora gritam, agonizam em dor o sofrimento juntam vozes num coro surdo mudo. Os postes a seguem com seus olhos cegos sem se virar para ver.A rua a observa passar velozmente, calmamente em silêncio, não tem palavras para questioná-la para onde vai, a rua que tudo sabe tudo vê, tudo ouve, tudo sente sempre nos outros. Ao fim da rua surge outra a entorta e a reta apruma-a na direção certa continua seu trajeto sem saber certamente para onde. Agora todos os olhos, bocas, narizes e ouvidos visíveis ignoram-na sente-se finalmente segura, assegurada entre seus próprios de que por enquanto não será atormentada. Nada pior que ser vigiada pelo nada, sussurra com alívio.

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